Entre as cores, um artista

Localizada no conjunto residencial Ebenezer, em Gravatá, a casa mais parece uma galeria de arte. Basta passar pela porteira para ver as primeiras obras: esculturas feitas de metal enfeitam o jardim. Depois, avançando um pouquinho, vê-se o piso à volta da piscina, formando um mosaico com pedaços de azulejo, convidando o visitante a conhecer o resto do lugar. Passando da soleira da porta, avistam-se os primeiros quadros, que de tão grandes, tomam a maior parte das paredes. Entretanto, o recanto mais curioso da casa ainda está por chegar: é o ateliê do artista. Nesse ambiente, há pinturas expostas nas paredes, no teto, e o piso também é todo decorado com desenhos feitos do resto da tinta que sobra nos pincéis é reaproveitada.

Com uma letra quase infantil, quem assina todas essas obras é o artista plástico Flávio Augusto Viana Gadelha, uma figura que, apesar de ter 35 anos de carreira, mantém uma simplicidade de iniciante. Sua ligação com a arte vem desde os tempos de criança, quando incentivado pela mãe, a dona de casa Maria Tereza Gadelha, ele fez suas primeiras pinturas. “Ela viu que eu tinha jeito, viu que eu tinha essa habilidade, gostava de desenhar. Ela de cedo já valorizava muito isso. Acho que idealizou ter um filho artista”, diz.

Flávio nasceu em 1957, na capital pernambucana. O artista plástico foi morar ainda menino no município de Sousa, na Paraíba, terra natal do seu pai, Francisco Queiroga Gadelha. Lá, Flávio conheceu o folclore, os folguedos, o cotidiano da vida no sertão e as danças da região. O resultado desse contato aparece nas suas primeiras pinturas, que retratam as tradições do interior nordestino, como a tela “A Procissão”, pintada aos onze anos de idade e cuja beleza das pinceladas lhe rendeu o Prêmio de Artes Plásticas da Universidade Federal da Paraíba. Morou ainda em João Pessoa antes de voltar para o Recife, no ano de 1976.

Em seu ateliê, Gadelha tem uma gama de acessórios e materiais que lhe dão condições de se dedicar a diferentes tipos de arte. Ele não apenas pinta, como também faz esculturas e gravuras. Para isso, Flávio conta com máquinas de litografia, uma de suas especialidades, além da prensa de metal e do aparato para produzir xilogravuras. Sua arte é feita sobre diferentes tipos de primatura, desde pintura em telas, sobre azulejo, passando pelo ferro, bronze e concreto.

Seus estudos em arte começaram a aos nove anos de idade, quando ainda vivia em João Pessoa. Ao voltar para Recife, sentindo-se pressionado pela sociedade que não enxergava com bons olhos o trabalho do artista plástico, Flávio resolver ingressar num curso universitário. Prestou vestibular para Filosofia, passou e cursou até o quarto período. “Abandonei o curso porque a filosofia estava me deixando doido”, completa com uma espontaneidade que lhe é característica. Depois, fez vestibular para Educação Artística. Terminou o curso e se sentiu mais livre para fazer aquilo que gostava. Estudou na Escola de Belas Artes do Recife durante “cinco anos valiosos”, como diz, e aprendeu pintura acadêmica. Em 1985, Gadelha viajou para Barcelona, na Espanha, para se especializar em restauração de obras de arte, e foi lá que ele fez sua exposição mais marcante, a da Caixa Barcelona.

Apesar de produzir, na maioria das vezes, por encomenda, Gadelha diz que “sempre vai ter as impressões do artista em cada obra”. Para ele, “as idéias são as modeladoras do artista, vamos evoluindo e criando um estilo a cada tema”. E dentro dessas idéias, Flávio produz até 50 trabalhos sobre um mesmo assunto, deixando sempre as impressões do autor como “digitais”, sempre implícitas na obra. Suas pinturas e esculturas estão expostas em diferentes lugares. É possível encontrá-las em casas de personalidades como a do senador Marco Maciel, em galerias de arte, no Museu do Estado de Pernambuco, em escolas e até no exterior, como em Buenos Aires e Mallorca.

Mas viver da arte tem seus obstáculos. É uma rotina composta por incertezas. “Às vezes a gente faz uma exposição e não vende nada, mas podemos vender tudo depois”, completa Gadelha. Casado e com dois filhos, a saída que ele encontrou para driblar essa situação foi a permuta, na qual acabou usando seus quadros como moeda de troca para garantir o sustento da família. “A permuta, às vezes, é melhor do que uma venda. Se a pessoa não pode comprar, talvez tenha algo que eu queira e também não posso comprar”. Prova de que o lucro não é, nem nunca foi, sua principal intenção.

“Tudo influencia no meu trabalho, até o calor afeta”, comenta demonstrando certa inquietação própria dos criativos. E assim como Olavo Bilac fala das dificuldades em se fazer o verso perfeito, Flávio também diz não ser fácil o trabalho do artista plástico. “É uma seqüência de determinados momentos que a pessoa vai desenhando, vai colocando tinta, vai redesenhando, apagando, modificando, olha de longe, olha de perto, deixa três dias, às vezes, em ‘banho-maria’ para observar. E é assim, é um eterno modificar, para um final feliz”, explica.

No decorrer de sua carreira, Gadelha passou por diversas fases se encaixando em diferentes estilos. Já na adolescência, depois de retratar durante a infância a rotina do interior, ele teve um momento mais erótico, próprio da puberdade. Em seguida, quando adulto, se dedicou à arte com cunho mais político, de denúncia e comprometimento, período no qual fez um de seus mais importantes quadros, “Pavilhão de Alienados”.

Em 1998, Flávio fez uma cirurgia cardíaca, o que fez mudar completamente a sua visão sobre a família e a arte. “Eu fazia arte contemporânea e era bem rígido. A operação me fez pensar que eu estava fora de contexto, e perceber que a família é muito importante”, diz. “Depois que eu voltei da operação do coração, eu comecei a retratar o povo porque vi que não fazia isso”.

Atualmente, seu objetivo principal é agradar a maioria, fazer pinturas mais leves e conquistar um público não somente intelectualizado. “Eu já fiz quadros grotescos, mas as pessoas não gostam. Elas gostam de coisas boas”, diz. Gadelha trabalha mais a forma juntamente com a fotografia, sem medo que os críticos de arte rotulem sua obra como academicismo. “A rotulação não me incomoda. Desde que não me chamem de retrógrado”.

Seja qual for o estilo em que ele se encaixa, as dificuldades pelas quais tenha passado, o fato é que para o artista plástico Flávio Gadelha “pintar é um bem que fazemos a si e aos outros. E  assim, tornar a vida das pessoas mais alegre”.

Texto por Carla Amorim Lyra